domingo, 16 de abril de 2017

gemidos de gatos na rua desde às 22h. 5h. abro a janela do quarto: um gato cinza. oxe, é mina? não, ela é malhada. colorida. inocente. fecho a janela correndo. ai meu deus. e agora? cadê meus gatos? mataram. morreram. facebook. ninguém online. abro a porta do quarto: gato cinza. na janela da cozinha. me encarando. o dono da casa. fecho a porta. desespero. cadê os meus? mataram. morreram. facebook. lisavietra. ajuda, conselhos, me esclarece a dinâmica dos gatos. penso que tenh...o de tirar a comida de fora, a areia também talvez. mas primeiro: cadê meus gatos? medo do gato cinza: tem o carão, esbelto, olha com superioridade, mostra que tem experiência em causar nas casas alheias pelas madrugadas. os meus: criados num quarto e sala, com rede de proteção e ração super premium. muito medo. conversa com lisavietra. entendo tudo e sonho com aquele momento em que os gatos, os meus óbvio, arranharão a porta para que eu abra. ainda que feridos, desfigurados mancos, talvez aleijados... nada. abro a janela de novo. ninguém. conversa com lisavietra. fico paralisada. realidade: gato cinza. minha imaginação: monstro do rio vermelho que veio apavorar minha rotina. ele, com certeza, não tem medo de mim. tô fudida. nunca mais saio daqui. coitado de meus gatos que são 'protegidos' por uma bufa fria como eu. tão fudidos. abro a janela. rabo de mina, passando. ufa. um está vivo. abro a porta. ninguém. abro e fecho. os dois vêm correndo. entra entra entra. medo do gato cinza vir na sequência. eles correm pra comida. não comeram a noite inteira por causa do gato cinza. coitados de meus gatos. mas continuam serenos. se lambem. deitam-se depois de uma noite de aventura, eu acho. eu? estou em prantos. eles estão vivos. :~~~

06:15h

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

O medo do abandono



Não sei dizer em que momento isso se iniciou em minha vida, mas o fato é que, nem sempre, vivi perseguida pelo medo de ser abandonada. Sempre relacionei a mim expressões / palavras como: medo da rejeição, insegurança etc., mas nunca consegui decifrar, de fato, o que esses termos significavam em minha vida. Não havia uma definição que contemplasse exatamente o sentimento que, há algum tempo, vem me acompanhando dia a dia.

Hoje, em meio a uma situação cotidiana, que costuma me causar muita angústia e ansiedade, nomeei com precisão aquilo que, sem sentido algum, estava sentindo: não o medo de ser rejeitada ou trocada, mas abandonada. E, apesar de não conseguir compreender agora, o que há de diferente em cada uma das situações propostas por cada termo, sei que não existe outra palavra, um sinônimo que seja para definir o que me deixa em pânico todos os dias em micro situações e diferentes relações: o medo do abandono. E hoje com a definição que acolhia todo o universo de angústia que eu nunca sei como explicar, eu chorei muito. Chorei verdadeiramente, como costuma ser inclusive muito difícil pra mim. Chorei porque pude entender que naquele momento eu aprendia alguma coisa sobre mim, de fato.

Segundo o dicionário, abandono significa:


1. .Ato ou efeito de abandonar.
2. Desprezo em que jazem as pessoas ou as coisas.
3. Renúnciacessãodesistência.


Essa descrição, sem dúvida, me remete a diferentes situações referenciais em minha vida, à minha história e, sobre ela, falo e penso mais, à medida que o tempo passa. Ainda assim, nunca usei esse termo exato para descrever sentimentos, sensações, experiências minhas... Ainda assim, é um termo novo, resumindo. A minha auto imagem, nunca deixou que me visse como alguém abandonado, de fato. Eu sempre 'me senti' muito importante pra isso. A rejeição sempre me trouxe a idéia de algo que foi recusado por motivos objetivos: rejeito esse objeto, pois não me agrada nisso ou naquilo. Daí, eu sempre me cobrar posturas e ações que me colocavam no lugar da frustração, visto que não cabia a mim executá-las. E isso me fazia sofrer, como se eu quisesse ser uma pessoa melhor e não conseguisse... A insegurança era aquilo que me fazia não enxergar além de não aceitar minhas qualidades: aquilo que me fazia ser eu e não outra e, por isso, única, singular, especial, como somos todos. Daí, ser muito vaidosa, me achar muito bonita, inteligente, legal e agradável (gênia gata etc., tipo Paula Lavigne rs), mas, ao mesmo tempo, achar no outro sempre algo MAIS bonito ou MAIS inteligente OU mais legal ou MAIS agradável e nunca me dar por satisfeita por ser quem sou e sofrer por isso também, por não me bastar. Ok. Não tenho ainda entendimento suficiente sobre mim para dizer em que grau o medo da rejeição e a insegurança são verdades em minha vida, o fato é que a palavra 'abandono', hoje, me levou para outro lugar na saga de descobrir-me e tornar-me. O abandono, me parece,  acontece abruptamente, sem nenhum motivo aparente, não por eu ser chata, feia ou burra ou qualquer outra coisa, mas repito: sem nenhum motivo. Ou seja, pode acontecer mesmo eu sendo "gênia, gata etc.". Ele é um perigo constante que me apavora. E é isso que eu sinto: que, por mais que eu seja uma pessoa interessante para se ter ao lado, serei abandonada a qualquer momento, sem direito a despedida.

Semana passada, na análise, relatei à psicóloga um fato de alguns anos atrás: início de namoro, o parceiro me pede para descer do carro e aguardá-lo, enquanto estaciona. Eu desço e tenho certeza: ele não vai voltar. Ainda agora, meus olhos marejam por identificar que essa certeza está comigo todos os dias quando me aproximo de alguém e que sofro, antecipadamente, por isso. Não fazia sentido o novo namorado me deixar no meio da rua, dizendo que vai estacionar o carro. Por que ele faria aquilo? Eu sabia que não fazia sentido e, ainda assim, aquilo me apavorava. Ele voltou, claro, e, não lembro qual era o assunto, eu relatei o mau sentimento que havia vivido minutos / horas antes. E ele apenas fez uma cara de quem realmente não tinha entendido.

Em minhas relações de amizade, esse meu medo do abandono se traduz num falso ˜foda-se˜. Eu acho sim que meus amigos também podem me abandonar a qualquer momento, ainda que isso não me faça sofrer tanto, pois a vida corre e, graças a mim, risos, amigos, eu tenho muitos. É o mesmo sentimento de abandono só que numa situação mais sutil, sobre a qual eu certamente reflito menos porque eu me iludo achando que, a qualquer momento, eu posso mandar um amigo se foder e continuar com os outros ou fazer novos. Então, sempre que me desentendo com algum amigo, sempre que há uma situação de conflito, eu, imaturamente, sou aquela que pensa, antes de pensar qualquer outra coisa: foda-se, não preciso dessa pessoa, a vida é isso, vamos pra frente. E o outro, na maioria das vezes, me surpreende com um: "é o que, Bárbara? me poupe." * Isso me faz lembrar Camila, melhor amiga de muitos anos, que, em situações desse tipo, na qual eu ficava nervosinha e querendo brigar com ela, perguntava: "menina, você por acaso é palhaça?"... E eu ria. Porque não havia motivo para me afastar dela, era apenas o meu medo de ser abandonada por ela já que eu achava que estava dando motivo para ela fazê-lo... Confuso né? É a minha própria cabeça, prazer. * Enfim, nessa dinâmica maluca, minhas amizades continuam a é bem verdade que, em algum momento, a paz de desenha. Quem pagou pra ver é prova, sou grata a todos rs.

Em minhas relações amorosas, pensei agora: deixa eu olhar meu celular, olhar nada, qualquer coisa... porque, na verdade, é muito difícil escrever sobre. Dói mesmo. Não acho que tenha sido sempre assim e, por isso, iniciei o texto dizendo não saber em que momento esse medo de ser abandonada se iniciou em minha vida, mas acho que, com os primeiros amores, eu era uma pessoa normal risos. Depois de um tempo, comecei a perceber que afastava as pessoas de mim e atribuí isso, equivocadamente, a muitas coisas. Nunca era nada daquilo. A questão é que, hoje, vivi uma situação parecida com a que relatei, na qual tive medo de ser deixada no meio da rua por um novo namorado. Hoje, eu percebi, numa troca de mensagens, que o que eu sentia não era frio na barriga por estar falando com alguém desejado, era medo de ser abandonada mesmo. Numa situação em que isso não fazia sentido algum. A pessoa iria me responder, eu sabia. Mas eu só pensava: e se ela não me responder mais? E não era: se não responder essa pergunta, ou se não responder agora ou hoje, era: se não responder mais, nunca mais, sumir... Uau! De onde eu tirei que a pessoa não me responderia mais? Isso nunca aconteceu antes com essa pessoa. Que loucura é essa? E isso apertou meu coração. O fato é que é esse sentimento que me motiva em todas as minhas ações: deve existir saudades, carinho, desejo sempre que ligo pra alguém, exponho vontade de ver, mando alguma mensagem etc., mas de verdade de verdade 90% de minhas interações se dão por medo que a pessoa não apareça nunca mais, ainda que eu tenha falado / visto ela pouco tempo antes. É sempre uma maneira de assegurar, sqn, que ela esteja presente em minha vida. Em função dessa prioridade, eu deixo pra trás toda e qualquer sensibilidade acerca da conquista, do encanto, do tempo mesmo. E eu sempre me dou por satisfeita cada vez que eu percebo que a pessoa está mais longe de mim. É incrível como isso me tranquiliza... E, se a pessoa ainda está perto, já menos em relação a um passado próximo, mas perto e interessada: pra mim não está bom, eu quero mesmo é ela bem longe porque, antes de tudo, o que eu sinto por ela é o medo de ser deixada. Ainda que seja uma relação em que alguma segurança me é dada, é assim que eu procedo, meus planos são infalíveis nesse sentido.

quarta-feira, 25 de março de 2015

um viva às crises


de riso.


:)

quarta-feira, 4 de março de 2015

é.
parece que, pro brasil, só ~outros quinhentos.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

aprendizado
é tempo passado
e, de já tão ido,
na estrada, batido:
caminho pisado.


assim se percebe
nas marcas que ferem
que o corpo não mente
que o espírito sente
e a gente digere.


seguir um gigante
e ainda um infante
ao olhar para si
para então descobrir
o que está lá atrás.


é o tempo, é o leite:
aqui, não se volta
e, quando se chora,
derrama e não jaz.

domingo, 9 de novembro de 2014

a vida não é online.
assim como são os personagens,


são os homens...
o único lugar onde não gastamos dinheiro é em casa,


quando já está tudo pago.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

ética

Existe uma coisa chamada ÉTICA, a partir da qual todas as pessoas, ainda que inconscientemente, sabem que deveriam agir.

Se agem fora dela e são criticadas por isso, ainda que defendendo a postura assumida, sabem, em seu íntimo, que merecem as observações lhes dirigidas.

Não há por que poupar alguém, por medo de ser mal compreendido, de colocações sobre a realidade de seus atos.

Não se deve querer simplesmente ofendê-las ao usar tal realidade. A omissão é aceita. Mas a mentira, nesse caso, não ilude.

sábado, 27 de abril de 2013

~~ a maré está subindo
e as pedras estão sumindo...

não me julgue se eu te
abraçar. ~~

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Fé cênica,

fé cínica,

derivados

&

afins.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

sms, lágrimas, the end.

.acordou alegre
pela noite passada.

ao vê-lo a caminho do
banho, sorriu.
...
"que horas são?",
pensou quando percebeu
o celular jogado
do companheiro.

sms,
lágrimas,
the end.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

- E, envergonhado, pediu: faz-me rir.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

- Cuidado com teus planos, pois, se forem inclinados, podem querer privatizá-los.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

PROUST E OS SIGNOS, Gilles Deleuze

PARTE I:


O que é “a busca” na obra? “a busca, não é simplesmente um esforço de recor­dação, uma exploração da memória: a palavra deve ser tomada em sentido preciso, como na expressão "busca da verdade”.” “A Recherche se apresenta como a exploração dos diferentes mundos de signos, que se organizam em círculos e se cruzam em certos pontos.”
O que é “o tempo perdido” na obra? “não é apenas o tempo que passa, al­terando os seres e anulando o que passou; é também o tempo que se perde (por que, ao invés de trabalharmos e sermos artis­tas, perdemos tempo na vida mundana, nos amores?).”
O que é “o tempo redescoberto” na obra? “um tempo que redescobrimos no âmago do tempo perdido e que nos revela a imagem da eter­nidade; mas é também um tempo original absoluto, verdadeira eternidade que se afirma na arte.” [...] “a obra de arte é o único meio de redescobrir o tempo perdido."
O que é “aprender” na obra? “Aprender diz respeito essencialmente aos signos.” [...] “Aprender é, de início, considerar uma matéria, um obje­to, um ser, como se emitissem signos a serem decifrados, interpretados.” [...] “A obra de Proust é baseada não na exposição da me­mória, mas no aprendizado dos signos.”
Qual o resultado essencial do aprendizado? “há verdades a serem descobertas [no] tempo que se perde.”
O que são “signos” na obra? “Os signos são especí­ficos e constituem a matéria desse ou daquele mundo.”
1º mundo: signos mundanos. “a tarefa do aprendiz é compreender por que alguém é "recebido" em determinado mundo e por que alguém deixa de sê-lo; a que signos obedecem esses mundos e quem são seus le­gisladores e seus papas.” [...] “Não se pensa, não se age, mas emitem-se signos.” [...] “O signo mundano não remete a alguma coisa; ele a "substitui", pretende valer por seu sentido.” [...] “O aprendizado seria imperfeito e até mesmo impossível se não passasse por eles.”
2º mundo: signos do amor. “Apaixo­nar-se é individualizar alguém pelos signos que traz consigo ou emite. É tornar-se sensível a esses signos, aprendê-los.” [...] “Não podemos in­terpretar os signos de um ser amado sem desembocar em mun­dos que se formaram sem nós, que se formaram com outras pessoas, onde não somos, de início, senão um objeto como os outros.” [...] “A contradi­ção do amor consiste nisto: os meios de que dispomos para preservar-nos do ciúme são os mesmos que desenvolvem esse ciúme, dando-lhe uma espécie de autonomia, de independên­cia, com relação ao nosso amor.” [...] “os signos amorosos são signos mentiroros que não podem dirigir-se a nós senão escondendo o que exprimem, isto é, a ori­gem dos mundos desconhecidos, das ações e dos pensamentos desconhecidos que lhes dão sentido.” [...] “Era uma terra incógnita terrível a que eu acabava de aterrar, uma fase nova de sofrimentos insuspeitados que se abria. E, no entanto, esse dilúvio da realidade que nos submer­ge, se é enorme a par de nossas tímidas e ínfimas suposições, era por elas pressentido.” [...] “O mundo do amor vai dos signos reveladores da mentira aos signos ocultos de Sodoma e Gomorra.”
3º mundo: as qualidades sensíveis ou impressões. “estes signos já se distinguem dos precedentes por seu efeito imediato.” [...] “São signos verídicos, que imediatamente nos dão uma sensação de alegria incomum, signos plenos, afirmativos e alegres.” [...] “o sentido material não é nada sem uma essência ideal que ele encarna.”
4º mundo: signos da arte. “os signos da arte são os únicos imateriais.” E capazes de “revelar” a essência de cada um (no caso, do sujeito-artista).
Concluindo. “os signos mundanos, princi­palmente os signos mundanos, mas também os signos do amor e mesmo os signos sensíveis, são signos de um tempo "perdido": são os signos de um tempo que se perde. Pois não é muito sensato freqüentar a sociedade, apaixonar-se por mulheres medíocres, nem mesmo despender tantos esforços de imaginação diante de um pilriteiro, quando melhor seria conviver com pessoas pro­fundas, e, sobretudo, trabalhar.”
Sobre a verdade. “Na verdade, “Em Busca do Tempo Perdido” é uma busca da verdade.” [...] “O ciumento sente uma pequena alegria quando consegue decifrar uma men­tira do amado, como um intérprete que consegue traduzir um trecho complicado, mesmo quando a tradução lhe revela um fato pessoalmente desagradável e doloroso.” [...] “Proust não acredita que o homem, nem mesmo um espírito supostamente puro, tenha na­turalmente um desejo do verdadeiro, uma vontade de verdade. Nós só procuramos a verdade quando estamos determinados a fazê-lo em função de uma situação concreta, quando sofremos uma espécie de violência que nos leva a essa busca.” [...] “Há sempre a violência de um signo que nos força a procurar, que nos rouba a paz.” [...] “Falta necessidade às verdades intelectuais.”
Crenças impedem o aprendizado. “1ª: [objetivismo é] atribuir ao objeto os signos de que é portador.” [...] “Pensamos que o próprio ‘objeto’ traz o segredo do signo que emite.” [...] “Relacionar um signo ao objeto que o emite, atribuir ao objeto o benefício do signo, é de início a dire­ção natural da percepção ou da representação. Mas é também a direção da memória voluntária, que se lembra das coisas e não dos signos. É, ainda, a direção do prazer e da atividade prática, que se baseiam na posse das coisas ou na consumação dos obje­tos. E, de outra forma, é a tendência da inteligência.”; 2ª: “o herói se esforça para encontrar uma compensação subjetiva à decepção com relação ao objeto.”
Sobre a essência. “é uma diferença, a Diferença última e absoluta.” [...] “Não é uma diferença empírica, sempre extrínseca, entre duas coisas ou dois objetos. Proust nos dá uma aproximação da essência quando diz que ela é alguma coisa em um sujeito, como a presença de uma qualidade última no âmago de um sujeito: diferença interna, “diferença qualitativa decorrente da maneira pela qual encaramos o mundo, diferença que, sem a arte, seria o eterno segredo de cada um de nós’.” [...] “Qualidade desconhecida de um mundo único." [...] “A essência não é apenas individual, é indivi­dualizante."
Memória voluntária. “A memória voluntária vai de um presente atual a um presente que ‘foi’, isto é, a alguma coisa que foi presente e não o é mais.” [...] “essa memória não se apodera diretamente do passado: ela o recompõe com os presentes.”
Memória involuntária. “interioriza o contexto, torna o antigo contexto inseparável da sensação presente.” [...] “o essencial na memória involuntária não é a semelhança, nem mesmo a identidade, que são apenas condições; o essencial é a diferença interiorizada, tornada imanente.” [...] “A lembrança involuntária retém os dois poderes: a diferença no antigo momento e a repetição no atual.”
A matéria em que o signo é inscrito. “Os signos mundanos são mais materiais por evoluírem no vazio. Os signos amorosos são inseparáveis da força de um rosto, da textura de uma pele, da forma e do colorido de uma face: coisas que só se espiritualizam quando a criatura amada dorme. Os signos sensíveis também são qualidades materiais, sobretudo os aromas e sabores. Somente na Arte é que o signo se torna imaterial, ao mesmo tempo que seu sentido se torna espiritual.”


Outras. “em dado momento o herói não co­nhece ainda determinado fato que virá a descobrir muito mais tarde, quando se desfizer da ilusão em que vivia. Daí o movi­mento de decepções e revelações que dá ritmo a toda a busca.”
O importante é que o herói não sabe certas coisas no início, aprende-as progressivamente e tem a revelação final. Inevitavel­mente, ele sofre decepções: "acreditava", tinha ilusões; o mundo vacila na corrente do aprendizado.”
“Em seus primeiros amores, ele faz o "objeto" se beneficiar de tudo o que ele próprio sente: o que lhe parece único em determinada pessoa parece-lhe também pertencer a essa pessoa. Tanto que os primeiros amores são orientados para a confissão, que é justamente a forma amorosa de homenagem ao objeto (devolver ao amado o que se acredita lhe pertencer).”
“O que o herói da Recherche não sabe no início da aprendizagem? Não sabe ‘que a verdade não tem necessidade de ser dita para ser manifestada, e que podemos talvez colhê-la mais seguramente sem esperar pelas palavras e até mesmo sem levá-las em conta, em mil signos exteriores’.”
“os acasos da escolha que lhe ensinam que as razões de amar nunca se encontram naquele que se ama, mas remetem a fantasmas, a Terceiros, a Temas que nele se incorporam por intermédio de complexas leis. Ao mesmo tempo, ele aprende que a confissão não é o essencial do amor e que não é necessário, nem desejável, confessar: estaremos perdidos, toda a nossa liberdade estará perdida.”
A decepção é um momento fundamental da busca ou do aprendizado: em cada campo de signos ficamos decepcionados quando o objeto não nos revela o segredo que esperávamos.”
Após a decepção fruto do objetivismo, vem a compensação subjetiva.
“Ao invés de nos conduzir a uma justa interpretação da arte, a compensação subjetiva acaba por fazer da própria obra de arte um simples elo na cadeia de nossas associações de idéias.”
Não se deve ver na arte um meio mais profundo de explorar a memória involuntária; deve-se ver na memória involuntária uma etapa, e não a mais importante, do aprendizado da arte.”
Uma diferença original preside nossos amores.”
A passagem de um amor a outro encontra sua lei no Esqueci­mento e não na memória; na Sensibilidade e não na imagina­ção.”
“Os signos do amor são acompa­nhados de sofrimento porque implicam sempre uma mentira do amado, como uma ambigüidade fundamental de que nosso ciú­me se aproveita e se nutre. Então, o sofrimento por que passa nossa senbilidade força nossa inteligência a procurar o sentido do signo e a essência que nele se encarna.”
Cada sofrimento é particular na medida em que é sentido, na medida em que é provocado por determinada criatura, em determinado amor. Mas, porque esses sofrimentos se reproduzem e se entrelaçam, a inteligência extrai deles algu­ma coisa de geral, que também é alegria.”
“Extraímos de nossas tristezas particulares uma Idéia geral; é que a Idéia era primeira, já se encontrava lá.”
“No caso dos signos mundanos, perdemos tempo porque esses signos são vazios e reaparecem, intactos ou idênticos, no final de seu de­senvolvimento.”
“O tempo do amor é um tempo perdido, porque o signo só se desenvolve na medida em que desaparece o eu que correspondia ao seu sentido.”
“Dos signos mundanos aos signos sensíveis, a relação do signo com seu sentido é cada vez mais íntima. [...]Mas apenas no nível mais profundo, no nível da arte, é que a Essência é revelada.”
“Quando atingimos a revelação da arte, aprendemos que a essência já se encontrava nos níveis mais bai­xos. Era ela que, em cada caso, determinava a relação do signo com seu sentido.”
“Os leitmotive da Recherche são: eu ainda não sabia; eu compreenderia mais tarde; quando deixava de aprender, eu não me interessava mais.”
“a busca da verdade é a aventura própria do involuntário.”
“O que nos força a pensar é o signo. O signo é o objeto de um encontro; mas é precisamente a contingência do encontro que garante a necessidade daquilo que ele faz pensar.”

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

...

"Para privilegiar um certo didatismo na nossa compreensão da “Hecceidades”, vamos adotar um frágil procedimento. Suponhamos que existam dois tipo de olhar: o olhar que ver as determinações e as formas e o olhar que ver o jogo das hecceidades. O olhar da forma é aquele que se investe nos objetos, nos sujeitos determinados e tudo ele representa num jogo de analogias. Vamos tomar como exemplo nosso amigo Yuri Tripodi. Olha-se para Tripodi e se acredita que a beleza é dele, que a sensibilidade é dele, que a generosidade é dele. Neste sentido o olhar fixo dirá: eis um cara insubstituível! Como se a beleza não fosse a expressão de forças da vida, como se ela também não correspondesse a critérios que estabelece o que é belo numa determinada época e sociedade. Como se Tripodi, estivesse condenado a ser sensível e generoso e por vezes não fosse o avesso. Ao contrário, hecceidade é um individuação sem sujeito. O olhar por hecceidade capta as intensidades, as camadas, as sigularidades que se expressam na matéria e a move. O Tripodi apaixonado, o Tripodi raivoso, o Tripodi infantil, o Tripodi lobo, o Tripodi belo, o Tripodi bicho, o Tripodi tudo, o Tripodi a depender das singularidades que se atualizam nele."


[ ESPERANDO GODOT VI ]

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

...

"Querida,

sobre o amor, eu li e estou de acordo com a concepção de Proust. Vale a pena tirar uns meses para ler "Em busca do tempo perdido". Segundo o narrador de Proust, o amor começa com um processo de individualização pelos signos. O sujeito que ama reconhece, na pessoa amada, signos e a qualifica com base nos signos reconhecidos. Neste momento, acredita que o que faz ela ter aquele sentimento é a pessoa amada, mas o jovem Marcel terá uma série de desilusões amorosas e continuará amando outras mulheres (Gilbert, Albertina etc). Perceberá, em algum dos volumes, que o amor não era provocado por aquelas mulheres, mas por uma expressão do desejo, de forças que nos conduz a aumentar a nossa potência, se aprendemos a nos associar com essas forças. Todavia, o livro de Proust é muito mais grandioso, pois ele vai em busca dos signos da arte, da expressão do tempo puro. Signos/essências da arte que, segundo ele, nos faz perder o medo da morte. 
Só escrevi essas linhas para não enviar o email em branco. Acredito que elas pouco ajudem. Você mesma tem que fazer seus mergulhos. Vale a pena, antes, ler o livro "Proust e os Signos" de Gilles Deleuze (formidável).
Você já leu "O jardim de Veredas que se bifurcam"? É um conto pequeno.

Um abraço, querida."


[ ESPERANDO GODOT V ]

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Sobre Hecceidades

"É muito frágil o que eu vou te falar, pois é preciso um mergulho maior nos ensinamentos de Deleuze para compreender esse conceito. Hecceidade é um ponto intenso, fluxo de sensações. Podemos tomar como exemplo nós mesmos, isto é, ao contrário de pensar que temos um único estado de ser, temos mil, a depender dos estados afetivos no qual mergulhamos. Isso não tem nada de subjetivo, nada de psicológico. A hecceidade varia conforme os afetos e os perceptos que vamos compondo.

Isso é quase nada perto da beleza desse conceito."




[ ESPERANDO GODOT IV ]

Sobre a Arte

"Cara Fada,
suponho que exista um mal entendido muito grande em relação à arte, mesmo entre os artistas. Alguns acreditam que a arte é um adorno, um recurso estético para enfeitar a vida. Mas, de maneira nenhuma, a prática dos grandes artistas se reduz a isso, é muito pouco. Ao contrário, a arte nos apresenta novas possibilidades de vida, novas formas de composição com a vida. A arte trapaceia a mesquinhez da nossa percepção interessada e nos faz criar e viver novos mundos. Como disse Proust, na entrevista concedida ao Jornal Le Temps: 'O prazer que nos dá um artista é de nos fazer conhecer um universo a mais.' Uma maioria pensa que Cezanne dedicou a vida a pintar maçãs e paisagens, mas o próprio Cezanne, em suas cartas, desfaz o mal entendido, dizendo: 'Jamais minha prática se voltou a pintar maçãs. Todo meu esforço foi pintar as forças que se expressam nesses corpos. É por isso que digo que minha prática-arte se põe a fazer visível o invisível. "

Pois, então, querida amiga, o artista é a ponto entre o homem e o super-homem, entre o organismo e o corpo sem orgãos, entre o teatro fixo e o teatro mágico. É o artista o revolucionário que mergulha no caos e, dentro dele, cria novos mundos.

 
Abraço, querida."
 
 
[ ESPERANDO GODOT III ]

Quem és?

"Querida Fada do Botequim,
 
'Quem você é?'. Essa é a pergunta que atravessou os séculos. 'Descubra', 'deixe se povoar pela sua preciosa solidão', 'ninguém te salvará'! Essas são as frases que parecem se insinuar nas cartas de Rilke ao jovem poeta. Não é diferente de Hermann Hesse quando nos apresenta 'O Lobo da Estepe'.

Querida amiga, quando diluimos o lobo e descobrimos as infinitas mônadas, já não podemos falar o que somos. Mas, para satisfazer o uso comum da linguagem gregária, deixo que me chamem de Godot, Mônadas, Corpo sem Orgãos. Mas, os nomes pouco importam, não é? Eu gosto mesmo é dos "Jardins de Veredas que se bifurcam", é nele que Borges encontra com a eternidade.
 
Infelizmente, tenho limites para escrever e devo respeitá-los."
 
 
[ ESPERANDO GODOT II ]